Diário de Bordo

A edição de 2011/2012 do Portugal Dakar Challenge será acompanhada diariamente por uma equipa de Jornalistas do prestigiado meio de imprensa, o  Jornal Publico, que assegurará assim o Diário de Bordo do Sonho Chamado Dakar.

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13 de Janeiro de 2012

Portugal-Dakar Challenge: O dia em que cumprimos o nosso destino

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Vin­dos da seca e desér­tica Mau­ri­tâ­nia, che­ga­mos ao ver­de­jante e luxu­ri­ante Sene­gal, onde o que nos parece abun­dân­cia nos recebe com o sol já a cair. Far­tura de cores, sons, sabo­res, chei­ros – inclu­sive os muito maus, sobre­tudo devido ao lixo que se acu­mula um pouco por todo o lado, assim como às águas estag­na­das que enca­ra­mos com man­gas com­pri­das e muito repelente.

O nas­cer do sol no lago Rosa, Senegal

Depois de dias sem ver vivalma, além dos com­pa­nhei­ros de via­gem, até de gente, que nos recebe de sor­riso aberto, parece haver far­tança. O que se tra­duz, claro, numa injec­ção de ânimo. Mas tam­bém no iní­cio do regresso a casa, adi­ado pelo mar cálido que nos con­vida a mergulhos.

O pó, as minas, o con­trolo de água (e de álcool), o dor­mir no chão (alguns até com escor­piões ou cabe­ças de peixe por com­pa­nhia), a comida enla­tada. Tudo isto ficou para trás. Os últi­mos três dias são pas­sa­dos em hotel, já com um pezi­nho na Europa. Pri­meiro em St. Louis, em bun­ga­lows junto ao mar. De seguida, junto ao lago Rosa, tam­bém com o oce­ano por com­pa­nhia – e onde uma BT-50 se sagrou cam­peã, numa cor­rida na praia que ser­viu mais para brin­car do que para com­pe­tir. Agora, por fim, no hotel habi­tu­al­mente usado na prova Paris-Dakar até à última edição.

Ao fim de 15 dias, três fron­tei­ras, mui­tas aven­tu­ras e alguns per­cal­ços, che­gá­mos ao destino.

O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventuraaqui

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12 de Janeiro de 2012

Portugal-Dakar Challenge: A ratoeira da areia

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

É certo e sabido por todos os que andam ou que já alguma vez anda­ram no todo-o-terreno. A che­gada à areia traz atas­canço na certa. Sobre­tudo quando a mai­o­ria achou que não valia a pena redu­zir a pres­são de ar dos pneus por­que o grau de difi­cul­dade dos rios are­no­sos que se tinham pela frente não impu­nha tal medida. Ou assim o achavam.

Só é pre­ciso que um único comece a cavar. Por uma hesi­ta­ção, uma mudança mal metida, um chei­ri­nho de tra­vão. A par­tir daí, é carro sim, carro sim. E mesmo os que pare­cem pas­sar ile­sos, aca­bam por cair na rato­eira. Tal­vez ins­pi­ra­dos pela auto­con­fi­ança de quem aca­bou de atra­ves­sar o Sara sem mácula.

Há quem con­siga esca­var a sua saída ape­nas tirando ar aos pneus (e até saia dis­pa­rado para que não se repita o desaire que dá sem­pre azo a algum gozo de quem assiste, mis­tu­rado com alguma brin­ca­deira e, claro, de regis­tos para a pos­te­ri­dade) e quem pre­cise de uma ajuda extra. Quando o caso não é grave, um guin­cho de um outro qual­quer veí­culo pode ser a solu­ção – e foi essa a res­posta para vários. Mas há tam­bém casos mais com­pli­ca­dos, em que mesmo um con­junto de guin­chos pre­cisa de uma mão­zi­nha extra. Ou, melhor, de uma pá de apoio (e pelos dois exem­plos abaixo des­cri­tos parece ser este um ele­mento essen­cial para quem anda nes­tas andanças).

Pri­meiro foi um carro junto ao mar, que se pas­se­ava, junto à aldeia pis­ca­tó­ria onde dor­mi­mos de domingo para segunda, para obser­var caran­gue­jos e aves. O lodo não per­doou e depressa o cha­mou a si.
A BT-50, o pri­meiro carro a acu­dir, desis­tiu, cor­rendo o risco de tam­bém lá ficar. O segundo, o Range Rover onde a Fugas seguia, quase voou ao per­ce­ber via rádio a urgên­cia: o Land Crui­ser estava a afundar-se, a cada minuto que pas­sava, na areia. E a maré have­ria de subir. Mas, lá che­gado, depressa com­pre­en­deu a arma­di­lha que o ter­reno repre­sen­tava. E o guin­cho, quando acci­o­nado, trouxe mais desâ­nimo, ao reben­tar e fun­ci­o­nar como um chi­cote. Che­gou um ter­ceiro veí­culo, um Toyota HDJ, cujo guin­cho pare­cia dar con­fi­ança sufi­ci­ente para sacar o bicho atolado.

Mas o caso agravava-se a cada ins­tante e foi pre­ciso recor­rer a uma das tais essen­ci­ais pás. Escavou-se de frente, de lado, por baixo. O lodo pare­cia estar deci­dido a engoli-lo. Segundo carro ancora ter­ceiro; ter­ceiro dá guin­cho à vítima; vítima prende o seu pró­prio guin­cho ao ter­ceiro. Não chega. Seria neces­sá­rio um quarto guin­cho a puxar para, ao fim de um tempo – que pare­ceu inter­mi­ná­vel, par­ti­cu­lar­mente para o pro­pri­e­tá­rio do Toyota – se dar a bata­lha por vencida.

Desde este inci­dente até à bor­bu­lhante St. Louis, ainda have­ría­mos de apa­nhar outro grande susto. Tão grande quanto o camião. E a ape­nas uns dez minu­tos da fron­teira entre a Mau­ri­tâ­nia e o Sene­gal, país a que che­gá­mos ao 13.º dia de via­gem (mas que esti­ve­mos quase, quase a não che­gar: a fron­teira fechava às 18h e às 17h20 já íamos com cinco ten­ta­ti­vas de puxar o camião do lodo sem quais­quer pro­gres­sos positivos).

Pou­cos per­ce­biam como teria aquele que pas­sou os últi­mos dias a safar tudo e todos se enfi­ado num “buraco” daque­les. Bas­tou um segundo para a roda dian­teira direita res­va­lar e a par­tir daí só houve a ten­ta­tiva – bem-sucedida, feliz­mente para a Fugas que seguia a bordo – de segu­rar o pesado que se foi arras­tando e mer­gu­lhando no lodo. Pri­meiro estava a ser ape­nas chato tal acon­te­cer. Mas quando o pos­sante guin­cho se reve­lou frouxo, foi pre­ciso recru­tar mais do que o Defen­der e o HDJ 100 que esta­vam pron­tos a aju­dar. Os refor­ços che­ga­ram da fron­teira sob uma nuvem de fuma­rada: um TD5, um Pajero, HDJ 80.

Posicionaram-se por trás, mon­ta­ram guin­chos. Nada. Muda­ram para a frente, vol­ta­ram a unir via­tu­ras. E nada. Cavaram-se trin­chei­ras, limpou-se o ter­reno à volta dos pneus. E tudo na mesma. Da fron­teira iam che­gando ins­tru­ções para que qual­quer pes­soa que não esti­vesse a fazer nada se diri­gisse à saída da Mau­ri­tâ­nia. O pro­blema é que não havia con­du­tor de mãos a aba­nar. Os que não tinham guin­cho para aju­dar, não se fize­ram roga­dos e pega­ram nas pás. E os outros tinham por­que tinham de regis­tar o momento – além de for­ma­rem uma espé­cie de equipa do apoio moral. Terá sido à quinta ten­ta­tiva que se con­se­guiu res­ga­tar o camião à lama que se estava a trans­for­mar em pedra mais depressa do que pode­ría­mos supor. Às 17h30, os car­ros arran­ca­ram ver­ti­gi­no­sa­mente em direc­ção ao Sene­gal. Cerca de dez minu­tos depois, a longa cara­vana final­mente ficava com­pleta. Bie­ve­nue au Senegal!

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10 de Janeiro de 2012

Portugal-Dakar Challenge: Todos na Terra de Ninguém

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Sete horas. Mais coisa, menos coisa. Foi esse o tempo que levá­mos a sair de Mar­ro­cos e a entrar na Mau­ri­tâ­nia. Qua­tro qui­ló­me­tros, desde o último posto de abas­te­ci­mento, já a ape­nas alguns pas­sos da porta de saída do pri­meiro país, mas ainda a um mundo de dis­tân­cia do segundo. E nem as seis horas da alvo­rada nos per­mi­ti­ram des­pa­char um pouco mais depressa.

Ainda do lado de Mar­ro­cos, há TIR de várias naci­o­na­li­da­des cola­di­nhos uns aos outros, dis­tri­buí­dos por várias filas, alguns car­ros ava­ri­a­dos – como o caso de um modelo a gaso­lina que teve direito a uma refei­ção die­sel para depois o seu pro­pri­e­tá­rio aca­bar com o petisco de desar­ru­mar a imensa baga­gem que nin­guém per­cebe de onde sai (e muito menos como vol­tará a caber) –, turis­tas autó­no­mos, expe­di­ções de aven­tura (pelo menos duas: a nossa e a de um grupo de fran­ce­ses com que nos cru­zá­ra­mos no mesmo com­plexo em Dakhla). Depois há guar­das, agen­tes adu­a­nei­ros, mili­ta­res, gen­dar­mes e outros tan­tos que não che­ga­mos a per­ce­ber o que lá fazem. Con­tro­los a atra­ves­sar até ao último cen­tí­me­tro marroquino.

As dili­gên­cias até que nem cor­rem mal. Mas isto é demo­rado; não há outra volta a dar. Para mais, desta vez, a cara­vana tem de seguir com­pacta. Sair junta de Mar­ro­cos; entrar junta na Mau­ri­tâ­nia. E, acima de tudo, atra­ves­sar unida a lín­gua de terra, apro­pri­a­da­mente deno­mi­nada “Terra de Nin­guém”, que separa os dois paí­ses. Uma dis­tân­cia de 3,5km, onde não há lei. Onde nin­guém manda. Ao longo da pista o que mais se vê é lixo, sucata, car­ros des­man­te­la­dos. No entanto, algo nos diz que se um qual­quer dos car­ros tivesse um pro­blema, depressa bro­ta­riam do nada mais de uma vin­tena de seres cujo sus­tento se encon­tra pre­ci­sa­mente neste limbo “que depressa se pode trans­for­mar num inferno”, como nos descrevem.

Nin­guém se queixa ou mesmo revela quais­quer sinais de ner­vo­sismo. Mas, ao che­gar ile­sos à entrada da Mau­ri­tâ­nia, arris­ca­ría­mos falar de um sen­ti­mento de alí­vio que atra­vessa a cara­vana: safamo-nos a pneus fura­dos, moto­res gri­pa­dos, car­ros atascasdos.

Ainda não entrá­mos no país e per­ce­be­mos ao longe o que nos aguarda: horas e horas de espera. Pelo menos assim o fazem crer os qua­tro pos­tos de con­trolo, sepa­ra­dos por não mais de 50m, além da obri­ga­to­ri­e­dade de parar para fazer um seguro auto­mó­vel válido no país. O que, fazendo con­tas por alto, com 26 veí­cu­los (23 jipes, duas motos e um camião) a uma média de (vamos ser bon­zi­nhos), diga­mos, cinco minu­tos cada, tería­mos ainda pela frente mais de duas horas. Mas aqui o melhor é não fazer con­tas. Melhor ainda é esque­cer o reló­gio e rela­xar. Nin­guém vai a lado nenhum sem tudo resol­vido e a des­con­trac­ção pode ser a melhor coisa a pôr na baga­gem quando se decide enfren­tar uma incur­são por estes lados.

Ape­nas uma coisa nos pre­o­cupa: a fron­teira encerra às 18h. Haja boa von­tade e algu­mas contrapartidas.

Os pos­tos de con­trolo até que se pas­sa­ram bem (um deles, a Fugas pas­sou a pé, enquanto par­ti­ci­pava num esforço con­junto de fazer café entre as filas que inclui um mini­fo­gão dali, café e cafe­teira dacolá e ainda o tra­ba­lho arte­sa­nal de criar peque­nas chá­ve­nas a par­tir de gar­ra­fas de água). Já os segu­ros das via­tu­ras impli­ca­ram uma longa e exte­nu­ante espera. Num buraco escuro, em cujo letreiro sobre a porta se lê “Café / Res­tau­rant”, fazem-se segu­ros à luz da lanterna.

Já pas­sava das sete e meia da tarde quando a cara­vana teve ordem para arran­car. Daí até ao acam­pa­mento tou­a­reg, onde nin­guém teve a capa­ci­dade de mul­ti­pli­car pei­xes para o jan­tar, ainda pal­mi­lhá­mos cerca de 200km – os últi­mos 40 em pista, ilu­mi­nada por uma gigan­tesca lua e escol­ta­dos por mili­ta­res que nos têm acom­pa­nhado desde a saída do asfalto – à velo­ci­dade pos­sí­vel para o camião que não dá mais de 83km/h.

E hoje é dia de semi­des­canso em Arkeiss: dor­mi­mos em jai­mas tou­a­reg, emba­la­dos pelas ondas, desta vez atlân­ti­cas e acor­dá­mos para um dia tran­quilo numa praia só para nós.

Enquanto mon­tá­mos escri­tó­rio, desta vez junto a uma pequena duna, com vista mar, há quem esteja a apa­nhar bur­riés – ou cara­mu­jos, como lhes chama Omar, um dos ocu­pan­tes do 19 que vêm da Madeira –, a foto­gra­far alfor­re­cas, a cor­rer na linha d’água, a mer­gu­lhar em águas mul­ti­co­lo­res como se não hou­vesse ama­nhã, a pas­sear. Neste dia, por causa das marés que deter­mi­nam se o nosso cami­nho está ou não livre, a etapa só arranca depois de almoço e no fim do dia esta­re­mos em Tessot.

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08 de Janeiro de 2012

Portugal-Dakar Challenge: Dançando com dromedários

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Foram o Ale­xan­dre e o Hugo, a dupla que segue no camião de apoio, que pri­meiro o avis­ta­ram. E nem pen­sa­ram duas vezes: inver­são de mar­cha feita e dedo indi­ca­dor esti­cado frente aos lábios a indi­car silên­cio, pas­sa­ram por nós sor­ra­tei­ros em sen­tido con­trá­rio. Tinham detec­tado, a cerca de 200m da pista e numa zona segura, um dro­me­dá­rio a pas­tar entre uma pai­sa­gem sal­pi­cada por árvo­res tom­ba­das ao capri­cho do vento que parece não ter des­canso. Pelo rádio ouvi­mos: “’bora! Sabe-se lá se vol­ta­mos a ter uma opor­tu­ni­dade des­tas: vamos tirar uma foto­gra­fia ao lado do bicho”.

E dê-se iní­cio ao baile. Camião pela direita e GC1 pela esquerda, aproximando-se deva­gar e sem gran­des ruí­dos. O belo ani­mal, natu­ral­mente, tenta escapar-se aos voyeurs mas lá con­se­gui­mos a ima­gem dese­jada, sem o cha­tear muito. Só depois o dro­me­dá­rio nos decide mos­trar o que é o todo-o-terreno, dando uns valen­tes galo­pes para longe des­tas bes­tas de metal. O ins­tante arranca gar­ga­lha­das de pra­zer, boa-disposição e a cer­teza de que o deserto já nos aco­lheu como um dos dele.

É sexta-feira e, assim que o sol nas­ceu, dei­xá­mos a tei­mosa fogueira da noite ante­rior (demo­rou um bom par de horas e vários e inu­si­ta­dos recur­sos para atear, mas de manhã ainda ardia) jun­ta­mente com os homens da Gen­dar­me­rie mar­ro­quina, e par­ti­mos com des­tino a Dakhla. Pros­se­gui­mos a etapa 8 rumo ao vazio no GC1, um dos veí­cu­los da orga­ni­za­ção, com o Zé Pereira.

A bordo do carro do mecâ­nico, o todo-o-terreno revela-se uma injec­ção de adre­na­lina em estado puro. Zé Pereira, que no seu cur­rí­culo conta com uma posi­ção entre os dez melho­res na clas­si­fi­ca­ção geral do Rali Esto­ril Por­ti­mão Mar­ra­kech, nem parece estar a fazer nada de espe­cial com a Ford onde segui­mos. Mas a ver­dade é que brinca como pou­cos nes­tes tri­lhos de todo-o-terreno. Com ele, sur­fa­mos o deserto. Até por­que, como gri­tava de vez em quando alguém pelo rádio, “o mar aqui à frente está cris­pado”. É ver­dade que, sem con­tar com os refle­xos que, qual alu­ci­na­ções, pare­cem mostrar-nos o oce­ano em várias par­tes do tra­jecto, água nem vê-la. Mas ondas não nos fal­ta­ram. Quer as fei­tas pela natu­reza, quer as que os outros car­ros vão criando.

Pelo cami­nho, sal­ti­ta­mos, cor­re­mos, ace­le­ra­mos, afo­ci­nha­mos. A pal­pi­ta­ção tam­bém ace­lera, mas o medo parece não ter atra­ves­sado a fron­teira con­nosco. Embora, como nos garan­tiu o nosso con­du­tor, tivés­se­mos “vindo calminhos”.

O GC1 é o carro que fecha a cara­vana e, por isso, não pode pas­sar nenhum dos outros par­ti­ci­pan­tes. Isto dá direito a várias pau­sas ao longo do dia: se há um que pára, nós para­mos. O tempo que for neces­sá­rio. E se alguém se lem­bra de almo­çar, nós almo­ça­mos (desta feita na ementa havia paio, pre­sunto, queijo, lulas e polvo para acom­pa­nhar o pão tra­zido no dia ante­rior de Es Semara; para beber, uma cer­veja fresquinha).

Já agora, ao con­trá­rio do que supú­nha­mos na última nota envi­ada, não houve nenhuma roda para tro­car ou pneu para remen­dar (a estafa do jipes da semana seria des­car­re­gada no dia seguinte, com uma ida a uma ofi­cina impro­vi­sada, onde Zé Pereira e Pedro foram avi­ando um a um). Mas não fal­tou que fazer nem razões para tra­var a mar­cha. Como os car­ros que iam parando para des­pe­jar os jer­ri­cans no depó­sito, um outro que pre­ci­sou das reser­vas do GC1 para abas­te­cer de gasó­leo, pelo menos três atas­can­ços – um deles, nosso (culpa desta vossa escriba que se lem­brou de pedir para que se imo­bi­li­zasse a via­tura pre­ci­sa­mente numa zona de areia com a triste inten­ção de cap­tar a foto­gra­fia ao grupo reu­nido no topo da duna) – e a ten­ta­tiva de assis­tên­cia a uma Tenéré após uma apa­ra­tosa queda. A mota porém não pre­ci­sou de assis­tên­cia mecâ­nica. Os pro­ble­mas dela resolver-se-ão mais tarde e vai aca­bar a via­gem à boleia do camião, enquanto o con­du­tor pros­se­gue até Dacar com ape­nas uns arranhões.

Houve ainda quem se tivesse “per­dido”, obrigando-nos a seguir uma pista dife­rente que nos levou a uma outra pai­sa­gem, mar­cada ainda mais pelo branco. A areia nesta parte é mais fina e o vento varre-a insis­ten­te­mente, fazendo com que os tri­lhos desa­pa­re­çam num pis­car de olhos. Já o hori­zonte surge cada vez mais perto. Mas a seguir a um hori­zonte, vem outro. E outro. E outro. Sem fim à vista. E é então que per­ce­be­mos onde esta­mos: numa arma­di­lha gigante em que o deserto parece desafiar-nos a ten­tar afrontá-lo. Não o faze­mos e vol­ta­mos para trás, espe­rando que se tenha tra­tado de ape­nas um pequeno des­vio, mas pre­pa­ra­dos para acci­o­nar a pro­cura se o pior se con­fir­masse. Não viria a ser neces­sá­rio: cerca de 100km à frente rece­be­mos a infor­ma­ção, via rádio, que o veí­culo em causa estava bem e já no Dakhla Atti­tude, o com­plexo de bun­ga­lows, encai­xado numa ravina junto ao mar que todos os dias recebe fãs do kitesurf.

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07 de Janeiro de 2012

Em caravana pelo deserto

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

O Sara pode ser ape­nas um único deserto, mas encerra mais mun­dos do que aque­les que se pode­ria con­se­guir enu­me­rar em par­cas linhas. Desde Es Semara atra­ves­sá­mos, num arti­lhado e muito alte­rado Range Rover, oce­a­nos de cas­ca­lho, ondu­la­ções de areia, pla­ní­cies luna­res. Sítios inós­pi­tos em que o céu parece ter sido pin­tado à mão e onde o tempo parou. Sem­pre den­tro da mesma cúpula que nos parece man­ter apri­si­o­na­dos, como se esti­vés­se­mos den­tro de uma daque­las bolas que quando se agi­tam cai neve. Só que, aqui, em vez de neve, à noite poder-se-iam agi­tar estre­las. Ao longo de 150km e umas seis horas pas­sá­mos por um único ser humano: um homem den­tro de um forte, como tan­tos que se vêem, ao longo do Sara. Foi pre­ciso che­gar ao asfalto, a 15km do acam­pa­mento, para nos cru­zar­mos com outros car­ros, cuja apa­ri­ção parece, mesmo no meio do nada, arrancar-nos a uma espé­cie de alu­ci­na­ção e obrigar-nos a regres­sar ao mundo real.

Ao con­trá­rio dos outros dias, hoje via­já­mos em cara­vana. Man­tendo os gru­pos, cada um com mais ou menos cinco car­ros, mas bem jun­tos. Em Es Semara uma coluna mili­tar parou-nos nas últi­mas bom­bas de gaso­lina, de onde se con­se­guiu o último acesso. Foi neces­sá­rio mos­trar docu­men­tos para seguir. Mas, ainda assim, fomos escol­ta­dos durante alguns qui­ló­me­tros pela polí­cia mar­ro­quina. Vol­ta­ría­mos a encon­trar agen­tes junto ao acam­pa­mento: de momento, a uns 20 metros do local onde a cara­vana se jun­tou num cír­culo per­feito para pas­sar a noite, um grupo de polí­cias cerca-nos para asse­gu­rar que a noite seja tran­quila: para nós e para eles.

Mas na última cidade por onde pas­sá­mos as ordens foram cla­ras e infle­xí­veis: não se pode sair da pista nem tão-pouco afastarmo-nos uns dos outros o sufi­ci­ente para per­der comu­ni­ca­ções rádio. Tro­cando por miú­dos, a dis­tân­cia do carro que segue atrás – aquele pelo qual temos a res­pon­sa­bi­li­dade de garan­tir o seu bem-estar – não deve exce­der os oito qui­ló­me­tros em linha recta. As razões pode­riam ser mui­tas, mas resumem-se a uma ques­tão de sobre­vi­vên­cia. A expe­di­ção pode ser turís­tica; a zona não o é.

Além das pedras, da terra, do pó, da areia, esta­mos a pas­sar tam­bém por um mar de minas. E, embora já se tenha pro­ce­dido à des­mi­na­gem da área, ainda há mui­tas por loca­li­zar e o melhor é não arris­car. Por isso, cir­cu­la­mos entre os mon­tes de pedras (ou cas­ca­lho) que ser­vem de ber­mas. Para lá des­tas nada é garantido.

Entre­tanto, cada grupo ao seu ritmo, todos che­ga­ram ao acam­pa­mento algu­res pró­ximo do Tró­pico de Cân­cer que já atra­ves­sá­mos com sen­ti­mento de dever cum­prido. Pelo cami­nho, todos foram tirando o máximo par­tido do que o tri­lho ofe­rece: areia para brin­car com a trac­ção às qua­tro, lom­bas para exer­cer (nesta altura já não há hipó­tese de pra­ti­car; ape­nas de fazer… e o melhor pos­sí­vel, de forma a não pre­ju­di­car nem veí­culo nem con­du­to­res), cur­vas para gin­gar, degraus para voar. Ou capotar.

Nada de alar­mes. O dia não foi pau­tado por nenhum aci­dente que resul­tasse em feri­dos. Algu­mas ava­rias, uns quan­tos furos, um carro a ver­ter óleo do motor depois de um encon­tro com um pedre­gu­lho, detec­tado no tri­lho pelo Patrol que seguia na tra­seira da cara­vana e que, contara-nos, avi­sou o Zé Pereira que, em con­junto com o filho Pedro, presta assis­tên­cia aos veí­cu­los ao longo de todo o percurso.

A des­culpa per­feita para parar e apoiar a equipa para­li­sada e a equipa mecâ­nica que lhes deu assis­tên­cia e que lhes per­mi­tiu pros­se­guir via­gem. Mas tam­bém uma óptima razão para decre­tar uma pausa para almoço: um pão fres­qui­nho tra­zido de Es Semara com cal­dei­rada de lulas, acom­pa­nhado por bata­tas fri­tas de pacote e regado com água. Para a sobre­mesa, pês­sego em calda.

A refei­ção sabe-nos pela vida e dá for­ças para pros­se­guir os ainda 115km que temos pela frente. Dei­xa­mos o Nis­san a repou­sar o sili­cone com a equipa mecâ­nica e com o camião de apoio que fechava a cara­vana e volta-se a pôr prego a fundo – uns com pre­gos mais rápi­dos que outros, mas todos a darem o máximo cons­ci­en­te­mente possível.

Com a caída da noite, per­ce­be­mos que já che­gá­mos a um outro deserto. Um deserto onde já há vida, quer em forma de insec­tos, quem em forma de árvo­res. Quais­quer deles, com um nível de resis­tên­cia indi­cado para habi­tar um espaço em que do solo só pare­cem nas­cer pedras e onde ferve durante o dia (hoje, atin­gi­mos uns secos 30ºC) e gela ao longo da noite (são duas da manhã e os dois pares de cal­ças, as duas cami­so­las – uma de malha, outra polar –, o gorro de lã, o casaco de penas com capu­cho e meio corpo den­tro de um saco-cama não che­gam para esque­cer o frio.

Ama­nhã, logo às sete (hora de Lis­boa), segui­mos para Dakhla, onde nos espera um banho e um col­chão. Com sorte, até um mer­gu­lho no mar. Bem mere­cido: a via­gem da etapa 8 far-se-á com quem vem a tra­ba­lhar para que todos os veí­cu­los che­guem ao des­tino. Por isso, pode ser que ao longo do dia de ama­nhã a Fugas passe mais tempo a mudar pneus que a foto­gra­far a paisagem.

O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventura aqui

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05 de Janeiro de 2012

Portugal-Dakar Challenge: Rumo à Mauritânia

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Pas­sa­vam trinta minu­tos da meia-noite e os gera­do­res já se tinham des­li­gado há muito. Tam­bém a antena que dá acesso à Inter­net, explicou-nos Pierre, de Tou­lon, devia estar des­li­gada… ou ava­ri­ada. Pas­sá­mos a última noite em Fort Beau Jerif, um com­plexo ins­ta­lado pró­ximo de um forte, quase no meio do nada, mas com luxos ini­ma­gi­ná­veis quando com­pa­rado ao último hotel, o Impe­rial Holi­day, em Mar­ra­quexe, de onde até a saída foi muito difi­cul­tada e exi­giu a pre­sença de polí­cia e dele­gado de turismo. Pelo menos para os mem­bros da organização.

Os res­tan­tes foram libe­ra­dos para o pri­meiro dia que come­çou a arran­car boa-disposição geral, mas que tam­bém se reve­lou sofrido para alguns. O Pajero de caixa auto­má­tica parou pouco tempo depois da cidade com pro­ble­mas. Pre­ci­sa­mente na caixa auto­má­tica. Regres­sou a Mar­ra­quexe e hoje aguar­dava a che­gada da máquina que iria diag­nos­ti­car o pro­blema, sem quais­quer cer­te­zas de poder con­ti­nuar con­nosco. Para todos os outros tam­bém não há faci­li­da­des. Acabou-se o pas­seio turís­tico, rema­tado da melhor forma comuma incur­são à exu­be­rante e intensa praça Dje­maa el-Fna e iniciou-se a expe­di­ção de sobre­vi­vên­cia em que cada carro é um tem­plo para quem aí segue.

Além disso, demo­rou, tempo e qui­ló­me­tros, mas os 30 minu­tos de pista para che­gar ao forte foram sufi­ci­en­tes para sen­tir que valeu a pena a cami­nhada de alca­trão até aqui. A noite ante­rior foi uma última noite de relaxe antes do deserto que nos con­duz ao Sara Oci­den­tal para duas noi­tes de acampamento.

Pará­mos para abas­te­cer no último posto em que há a cer­teza de haver com­bus­tí­vel. Depó­si­tos a vazar e jer­ry­cans com­ple­tos, apro­vei­ta­mos a deixa para comer alguma coisa e ligar o com­pu­ta­dor à cor­rente loca­li­zada sobre um lava­tó­rio e com um cai­xote do lixo ao lado, gen­til­mente cedida.

Hão-de che­gar momen­tos ainda mais difí­ceis, prin­ci­pal­mente para atra­ves­sar a Mau­ri­tâ­nia. E acabam-se as cer­te­zas de quando pode­re­mos enviar o pró­ximo relato (mas have­re­mos de ten­tar tudo para enviá-lo o mais depressa pos­sí­vel): é que a par­tir daqui, o ter­ri­tó­rio é inós­pito e a rede poderá falhar a maior parte, se não todo, o tempo.

Mas para já vamos apro­vei­tando a sim­pa­tia com que nos vão aco­lhendo por onde quer que pas­se­mos – como nos aca­bou de acon­te­cer em Tan-Tan, onde dei­xá­mos o ende­reço da Fugas para que os nos­sos anfi­triões, que nos anda­ram a guiar entre pada­rias, cafés, casas de banho, pudes­sem esprei­tar e até dei­xar um comen­tá­rio (Salut! Et merci pour tout!).

p.s. – entre­tanto, che­gá­mos, nesta quinta-feira, a Es Smara, local do último abas­te­ci­mento até Dakhla e tam­bém para o último con­tacto com a civi­li­za­ção. A noite foi pas­sada no deserto sob uma cúpula estre­lada. Pros­se­gui­mos rumo à Mau­ri­tâ­nia. O ner­voso miu­di­nho aumenta, mas tam­bém o ânimo. Infe­liz­mente, o Mit­su­bishi Pajero, que ficou em Mar­ra­quexe, vol­tou para casa. Dei­xa­mos aqui os nos­sos votos de boa viagem.

O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventura aqui

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02 de Janeiro de 2012

Portugal-Dakar Challenge: Do Mediterrâneo ao Atlas

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Com o céu cinza e alguns sal­pi­cos, aban­do­ná­mos logo às pri­mei­ras horas da manhã as pai­sa­gens ver­des secas do Medi­ter­râ­neo, dei­xando uma caó­tica Rabat para trás. Deste ponto até Mar­ra­quexe há ape­nas auto-estrada para pal­mi­lhar. Mas, mesmo cal­cu­lando a falta que os car­ros já sen­tem de um pouco de pó, nem por isso a mono­to­nia se impõe. Um pouco por todo o lado, há sem­pre algo a tomar aten­ção. Ora são as obras de alar­ga­mento, ora as ope­ra­ções stop (no mínimo, uma por por­ta­gem: e em 323km pas­sá­mos segu­ra­mente por mais de três), ora são as pes­soas que, do nada, sur­gem a cor­rer pron­tas a ven­der, a pedir, a negociar.

Como os três homens que, assim que pará­mos as via­tu­ras, logo a seguir a umas por­ta­gens quase no meio do nada, nas­ce­ram tal cogu­me­los, não se sabe bem de onde, com cola­res (“flor de pinho, señora”, dizia um, arra­nhando o espa­nhol, “un’euro / 10 dirhams”), com ces­tas de vime (“una, cinq’euro”), ou até mesmo com uma moeda de 50 cên­ti­mos para tro­car por dirhams. Há quem ainda ofe­reça “três euros por duas ces­tas de vime”, mas infle­xi­vel­mente o valor não baixa de “dua, quatr’euro”. Já o custo dos cola­res é mais osci­lante: de um euro cada pas­sou a dois por um euro, depois três, depois qua­tro… E, oferta final, um molho deles por sete dirhams (qual­quer coisa como 70 cêntimos).

Saí­mos de mãos a aba­nar, sem negó­cio con­cre­ti­zado, mas ainda arran­ca­mos uma sonora gar­ga­lhada para a foto­gra­fia. Pelo cami­nho, pas­sa­mos por aldeias que pare­cem acam­pa­men­tos, por mulhe­res na estrada, de mala ao ombro, como que à espera do auto­carro, por um rebo­que cujos car­ros vão cheios de mar­ro­qui­nos à boleia, por camiões cuja carga ultra­passa em dobro o tama­nho do vagão que a trans­porta, por plan­ta­ções a per­der de vista, por tan­ques de guerra camu­fla­dos em cima de camiões TIR. E o hori­zonte vai-se abrindo. O céu já é maior e o olhar peri­fé­rico já só con­se­gue apa­nhar uma ínfima parte do que se tem pela frente. Lá ao fundo a impo­nente e nevada cor­di­lheira do Atlas, cujo pico mais alto sobe a mais de 4160m. No seu sopé, a “cidade ver­me­lha”, hoje ilu­mi­nada por um sol atre­vido — que, se o des­cuido o dei­xar, até queima -, emol­du­rada por um limpo céu azul, a con­tras­tar com a cin­zenta Rabat que dei­xá­mos três horas antes.. Sabe­mos que nos esta­mos a apro­xi­mar de Mar­ra­quexe tam­bém pelos car­ros que se cru­zam con­nosco na auto-estrada: jagua­res, fer­ra­ris, lam­borghi­nis… Em opo­si­ção, seguem ao nosso lado moto­re­tas “a cair de madu­ras” de cujos con­du­to­res arran­ca­mos sor­ri­sos, sau­da­ções e até poses para a câmara.

Assim que entra­mos na cidade vol­ta­mos ao caos do trân­sito. A cara­vana é com­pacta, mas há sem­pre quem a con­siga sepa­rar. E lá aca­ba­mos per­di­dos… a uns par­cos 100m do hotel. Fica­mos mesmo aqui ao lado a comer umas espe­ta­das de carne ultra­tem­pe­ra­das com batata frita e pão a acom­pa­nhar. A rema­tar, um café expresso de sabor estra­nho mas via­jado: à falta de um para ser­vir, um dos empre­ga­dos apressou-se a ir bus­car cinco expres­sos ao bote­quim da frente, do outro lado da estrada. Choukran!

O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventura aqui

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02 de Janeiro de 2012

Portugal-Dakar: O dia mais longo

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Aca­bá­mos de “ater­rar” em Rabat. Pelo menos uns quan­tos de nós. A comi­tiva onde seguem os veí­cu­los cujos con­du­to­res regres­sa­rão de avião a Lis­boa ainda vem a cami­nho; algu­res entre Ceuta e o fim da 3.ª etapa, que ligou Por­ti­mão à capi­tal mar­ro­quina [o camião, que saiu de Por­ti­mão às 04h00, havia de che­gar 03h25 do dia seguinte].

Foram pre­ci­sas 14 horas, desde que aban­do­ná­mos o hotel de Por­ti­mão, para atra­ves­sar a entrada do Ibis de Rabat. Pelo cami­nho fica­ram cerca de 800km de asfalto e uma tra­ves­sia marí­tima pau­tada pelas buro­cra­cias ine­ren­tes (passa docu­mento, pre­en­che papel, mos­tra outro docu­mento, carimba papel…). Ainda assim, livrámo-nos das pro­vá­veis revis­tas aos car­ros. Depois de várias deze­nas de via­gens a Mar­ro­cos, “Zé” Pereira, o mecâ­nico que este ano se junta à expe­di­ção, já se pode dar ao luxo de, qual ilu­si­o­nista, tirar da manga um conhe­ci­mento aqui e outro acolá. Por isso, o que de iní­cio pare­cia inter­rom­per o per­curso por um tempo infi­nito, despachou-se num ins­tante. Saí­mos de Tarifa às 17h (hora local, 16h de Lis­boa) e pelas 19h (tam­bém hora local; a mesma de Lis­boa) já está­va­mos a tra­tar de levan­tar dinheiro e tro­car euros por dirhams (1 euro equi­vale a 10 dirhams, sendo que o jan­tar, por exemplo, ficou em 75 dirhams).

Mas, antes de nos sen­tar­mos à mesa, em solo mar­ro­quino, ainda havía­mos de penar. Até Tarifa, pro­ga­to­ni­zá­mos um quase contra-relógio. É que jipes car­re­ga­dos equi­va­lem a velo­ci­da­des limi­ta­das. Logo, a mai­o­ria do tempo foi-se cir­cu­lando entre os 100 e os 120km/h. Com duas para­gens para abas­te­cer, uma das quais para um “boca­dillo” para almoço, ali­nhá­mos na fila para o “ferry” mesmo a tempo de pre­en­cher mais um ou outro papel e embar­car. Por isso, à falta de com­pe­ti­ção, há desa­fios de sobra a ultrapassar.

á do outro lado do canal, esperava-nos outro género de desa­fios. Depois da fron­teira e das des­con­fi­an­ças dos guar­das, tive­mos de nos safar às ope­ra­ções stop um pouco por todo o lado – e, percebe-se, não vale a pena irri­tar nenhum agente; é pas­sar cer­ti­nho, sem ava­rias e sem­pre em frente –, trân­sito caó­tico onde os sinais pare­cem ser­vir para enfei­tar e as pes­soas que pare­cem nas­cer das ber­mas das estra­das e até das auto-estradas num ponto no meio do nada.

São, entre­tanto, oito e picos e a fome leva-nos a deci­dir dei­xar a última etapa de quase 300km para depois do jan­tar. Ficamo-nos por Assi­lah, fazendo um pequeno des­vio da auto-estrada que nos tra­ria a Rabat, para apro­vei­tar­mos uma das mui­tas espla­na­das de peque­nos res­tau­ran­tes: da ementa, a des­ta­car um chá de menta hiper­doce e uma quente e revi­go­rante harira, uma sopa tra­di­ci­o­nal mar­ro­quina que alguém acusa de ter vindo direc­ta­mente de um pacote de sopa Maggi. Algo pron­ta­mente negado pelo homem que vai atra­ves­sando a estrada de um lado para o outro inú­me­ras vezes para nos ser­vir, evi­tando os car­ros velhos e des­con­jun­ta­dos, e que se vai cru­zando com deze­nas de famí­lias que se pas­seiam: homens de cri­an­ças peque­nas pela mão, mulhe­res acom­pa­nha­das com um trio de garo­tas de patins, alguém que pas­seia o cão (um husky que parece des­lo­cado do ambi­ente), ban­dos de rapa­zes que se divertem…

Um dia longo que ter­mina já a pen­sar na “cidade ver­me­lha” que nos espera ama­nhã. Até Marraquexe.

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01 de Dezembro de 2012

Portugal-Dakar Challenge: “Sana saâida”

Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

E para con­ti­nuar este 2.º Portugal-Dakar Chal­lenge, ainda por cami­nhos lusos, uma etapa para “acon­che­gar a baga­gem”. A baga­gem e os espí­ri­tos. Embora esses já este­jam mais do outro lado do Medi­ter­râ­neo do que pelos tri­lhos ibé­ri­cos por onde ainda cir­cu­la­mos. A pas­sa­gem do ano fez-se por Por­ti­mão – um jan­tar e ceia no Tivoli, onde pas­sá­mos a última noite antes de Mar­ro­cos. I.e., antes de se ini­ciar “a ver­da­deira aven­tura”, confirmam-nos uns quan­tos olha­res de ansiedade.

Ainda sem o céu afri­cano a per­der de vista e livres das agru­ras que as pai­sa­gens desér­ti­cas podem pro­por­ci­o­nar, o segundo dia, pelos cami­nhos de terra que ligam Beja a Sil­ves e, daqui, por estrada, até ao Autó­dromo do Algarve, já deu para duas coi­sas: asse­gu­rar que nenhum dos veí­cu­los se “des­man­chará” ao mínimo impre­visto e ali­men­tar a von­tade de seguir para tri­lhos ainda mais arro­ja­dos. Tam­bém deu para que várias via­tu­ras, na impos­si­bi­li­dade dos seus par­ti­ci­pan­tes (ou mesmo por limi­ta­ções da pró­pria máquina) se man­te­rem na prova ao longo de duas sema­nas, se jun­tas­sem com ânimo nesta expe­di­ção para as duas eta­pas naci­o­nais. A Fugas seguiu de Toyota Land Crui­ser, numa comi­tiva que incluía ainda um Range Rover, uma Mazda BT-50, pre­pa­rada para com­pe­ti­ção, um Mit­su­bishi Pajero e uma Ténéré.

A bordo de um muito con­for­tá­vel Land Crui­ser, gra­ças ao sis­tema refor­çado de amor­te­ce­do­res, o baru­lho da tra­lha acu­mu­lada pode ainda não ser ensur­de­ce­dor, como nos avisa o nosso con­du­tor desta etapa, Fer­nando, um emprei­teiro que des­co­briu o gosto pelo todo-o-terreno quase ao mesmo tempo que Mar­ro­cos. Mas já impõe res­peito e já deixa adi­vi­nhar o que nos espera. O certo é que a garan­tia é de que “isto ainda não é nada!”. Fica o alerta.

Ainda assim, já há der­ra­pa­gens, char­cos, alguma lama e mui­tos bura­cos para que se per­ceba o gosto de brin­car que atra­vessa toda a caravana. Ainda com várias pre­cau­ções: ficar em Por­tu­gal por causa de uma brin­ca­deira de fra­cos resul­ta­dos “seria como mor­rer na praia”. É por essa razão que a pista de todo-o-terreno do Autó­dromo Inter­na­ci­o­nal do Algarve é enca­rada com pre­cau­ção. Mesmo deva­gar, a pista impõe res­peito, quer pelos ângu­los íngre­mes de subi­das e des­ci­das, quer pelas cur­vas aper­ta­das. O “sô” Rogé­rio segue à frente na volta de reco­nhe­ci­mento. É neste grupo quase um guru. Conhece como pou­cos as manhas do todo-o-terreno e tem um ins­tinto de nave­ga­ção que lhe con­quis­tou o direito de seguir a maior parte do tempo em pri­meira posi­ção da cara­vana – um direito que tem como brinde poder via­jar de jane­las aber­tas sem uma refei­ção de pó por acrés­cimo. Por isso, quando o “sô” Rogé­rio avisa para se ter cui­dado, a adver­tên­cia é levada a sério. A pri­meira volta é cui­da­dosa e, dada a hora tar­dia, já com o sol a bater de frente, difi­cul­tando a visi­bi­li­dade. Na segunda, já bem afas­ta­dos uns dos outros, a con­versa é outra e a expe­ri­ên­cia já dá direito a sal­tos e peões. E, para Javier, que, depois de no ano pas­sado ter vindo com o pai de jipe, viaja em duas rodas, deu quase direito a uma apa­ra­tosa queda: “fiquei assim [e apro­xima os dedos dei­xando um inter­valo de uns dois cen­tí­me­tros] de ir ao chão”, explica bem-disposto.

Mas, finda a etapa, nin­guém caiu, nenhum carro reve­lou neces­si­dade de inter­ven­ções de maior, nin­guém pre­ci­sou de ser rebo­cado. Já a carga, essa, ficou de facto mais acon­che­gada. Pronta para seguir via­gem que, ao ter­ceiro dia, tem pela frente uma etapa de quase 800km. Ao fim do pri­meiro dia do ano já esta­re­mos em Rabat a dese­jar “Sana saâida”. Que é como quem diz: “Feliz Ano Novo”.

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30 de Dezembro de 2011

Portugal-Dakar: Tudo a postos para a partida

Mochi­las a pos­tos, vaci­nas em dia, moto­res lubri­fi­ca­dos, pneus novos em folha. Tudo pronto para “ace­le­rar” para o 2.º Portugal-Dakar Chal­lenge, um rali que se pauta mais pela con­tem­pla­ção do que pela com­pe­ti­ção. As 40 equi­pas já se fize­ram à estrada a cami­nho de Dacar — num pri­meiro dia calmo por Por­tu­gal, com par­tida do Car­taxo — e com elas segue a Fugas.

Ainda não são as des­lum­bran­tes dunas do Sara, mas à porta do Museu Rural e do Vinho, no Car­taxo, a adre­na­lina já se fez sen­tir entre par­ti­ci­pan­tes, que se divi­dem por 4×4 e por motos. Jun­tos vão per­cor­rer o mítico per­curso até à capi­tal do Sene­gal — que será acom­pa­nhado dia a dia no blo­gue Em Via­gem da Fugas -, tor­nado famoso com o Paris-Dakar (prova entre­tanto rebap­ti­zada ape­nas de Dakar e que ace­lera pela Amé­rica do Sul de 1 a 15 de Janeiro).

Neste Portugal-Dakar Chal­lenge, em vez de em causa estar a von­tade de che­gar pri­meiro, prometem-se “liber­dade, aven­tura, natu­reza, turismo, soli­da­ri­e­dade e cul­tura”. Até por­que, garante a orga­ni­za­ção, haverá nos pró­xi­mos 15 dias tempo de sobra para viven­ciar “cená­rios e ambi­en­tes”. Tanto fora como den­tro de portas.

Ainda em Por­tu­gal, há duas eta­pas que não deve­rão dei­xar as equi­pas indi­fe­ren­tes e que até podem ser­vir de aque­ci­mento: hoje, o per­curso que liga o Car­taxo a Beja inclui, ao longo do dia, para­gens em Alen­quer, com visita à sede da Rota dos Vinhos de Lis­boa e em Tor­res Vedras, na sede da CVR de Lisboa.

Para o último dia do ano está reser­vado um “mimo” para ace­le­ras e um treino para os mais inex­pe­ri­en­tes: o Off Road Park do Autó­dromo Inter­na­ci­o­nal do Algarve, a par­tir das 15h, deverá pôr à prova os veí­cu­los antes de par­ti­rem para ter­re­nos menos amis­to­sos. O fim da segunda etapa está pro­gra­mado para Por­ti­mão, onde a par­tir das 18h, os par­ti­ci­pan­tes deve­rão come­çar a che­gar à Zona Ribei­ri­nha, junto ao Clube Naval.

2012 chega com o iní­cio de uma etapa que levará a comi­tiva até Rabat e daí parte-se rumo a sul. Mar­ra­quexe, Fort Bou Jerif e, por fim, o deserto, que aco­lhe duas eta­pas. Dakhla, ao fim do 8.º dia, chega com a riso­nha pers­pec­tiva de um dia de des­canso para apro­vei­tar a cidade do Sara Oci­den­tal, onde se cru­zam influên­cias espa­nho­las, sobre­tudo nas cons­tru­ções, com cul­tura sarauí e tra­ços mar­ro­qui­nos. E já se pres­sente a pro­xi­mi­dade com a Mauritânia.

É para o deserto já do outro lado da fron­teira para onde se segue ao 10.º dia. Na Mau­ri­tâ­nia, há para­gens obri­ga­tó­rias em Banc D’Arguin e Nou­ak­chott. A entrada para o Sene­gal faz-se pela estu­dan­til St. Louis. Mas ainda antes de atra­ves­sar a meta, em Dacar, uma etapa de exce­lên­cia com ponto de che­gada no Lago Rosa, onde estão pro­me­ti­das algu­mas últi­mas brin­ca­dei­ras com os veí­cu­los. No fim, terão sido per­cor­ri­dos 4618km ao longo de mais de 60 horas (86h45’, se se con­ta­bi­li­zar o tempo de para­gens).

Rali soli­dá­rio

Além da ver­tente lúdica, há tam­bém com duas mis­sões soli­dá­rias: a pri­meira envolve todos os par­ti­ci­pan­tes e implica a entrega de uma bolsa de equi­pa­men­tos esco­la­res e edu­ca­ti­vos a uni­da­des de ensino em aldeias mar­ro­qui­nas pre­vi­a­mente iden­ti­fi­ca­das. A segunda aposta na saúde oral, com a cri­a­ção de folheto em por­tu­guês e fran­cês, entrega de Kit Den­tá­rio Oferta (escova, pasta, fio den­tal e infor­ma­ção) e uma acção de ras­treio oral em cri­an­ças por Por­tu­gal, Mar­ro­cos e Senegal.

Eta­pas
1.ª    Car­taxo — Beja (30/12)
2.ª    Beja — Por­ti­mão (31/12)
3.ª    Por­ti­mão — Rabat (01/01)
4.ª    Rabat  - Mar­ra­quexe (02/01)
5.ª    Mar­ra­quexe — Fort Bou Jerif (03/01)
6.ª    Fort Bou Jerif — Lac Chba­biyne Acam­pa­mento (04/01)
7.ª    Lac Chba­biyne Acam­pa­mento — Deserto Sara Acam­pa­mento (05/01)
8.ª    Deserto Sara Acam­pa­mento — Dakhla (06/01)
9.ª    Dakhla — Dakhla (07/01)
10.ª  Dakhla — Mauri Desert Camp (08/01)
11.ª  Mauri Desert Camp — Banc D’Arguin Desert Camp (09/01)
12.ª  Banc D’Arguin Desert Camp — Nou­ak­chott (10/01)
13.ª  Nou­ak­chott — St. Louis (11/01)
14.ª  St. Louis — Lago Rosa Camp (12/01)
15.ª  Lac Rose Camp — Dacar (13/01)

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