Diário de Bordo
A edição de 2011/2012 do Portugal Dakar Challenge será acompanhada diariamente por uma equipa de Jornalistas do prestigiado meio de imprensa, o Jornal Publico, que assegurará assim o Diário de Bordo do Sonho Chamado Dakar.
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13 de Janeiro de 2012
Portugal-Dakar Challenge: O dia em que cumprimos o nosso destino
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)
Vindos da seca e desértica Mauritânia, chegamos ao verdejante e luxuriante Senegal, onde o que nos parece abundância nos recebe com o sol já a cair. Fartura de cores, sons, sabores, cheiros – inclusive os muito maus, sobretudo devido ao lixo que se acumula um pouco por todo o lado, assim como às águas estagnadas que encaramos com mangas compridas e muito repelente.
O nascer do sol no lago Rosa, Senegal
Depois de dias sem ver vivalma, além dos companheiros de viagem, até de gente, que nos recebe de sorriso aberto, parece haver fartança. O que se traduz, claro, numa injecção de ânimo. Mas também no início do regresso a casa, adiado pelo mar cálido que nos convida a mergulhos.
O pó, as minas, o controlo de água (e de álcool), o dormir no chão (alguns até com escorpiões ou cabeças de peixe por companhia), a comida enlatada. Tudo isto ficou para trás. Os últimos três dias são passados em hotel, já com um pezinho na Europa. Primeiro em St. Louis, em bungalows junto ao mar. De seguida, junto ao lago Rosa, também com o oceano por companhia – e onde uma BT-50 se sagrou campeã, numa corrida na praia que serviu mais para brincar do que para competir. Agora, por fim, no hotel habitualmente usado na prova Paris-Dakar até à última edição.
Ao fim de 15 dias, três fronteiras, muitas aventuras e alguns percalços, chegámos ao destino.
O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventuraaqui
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12 de Janeiro de 2012
Portugal-Dakar Challenge: A ratoeira da areia
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)
É certo e sabido por todos os que andam ou que já alguma vez andaram no todo-o-terreno. A chegada à areia traz atascanço na certa. Sobretudo quando a maioria achou que não valia a pena reduzir a pressão de ar dos pneus porque o grau de dificuldade dos rios arenosos que se tinham pela frente não impunha tal medida. Ou assim o achavam.
Só é preciso que um único comece a cavar. Por uma hesitação, uma mudança mal metida, um cheirinho de travão. A partir daí, é carro sim, carro sim. E mesmo os que parecem passar ilesos, acabam por cair na ratoeira. Talvez inspirados pela autoconfiança de quem acabou de atravessar o Sara sem mácula.
Há quem consiga escavar a sua saída apenas tirando ar aos pneus (e até saia disparado para que não se repita o desaire que dá sempre azo a algum gozo de quem assiste, misturado com alguma brincadeira e, claro, de registos para a posteridade) e quem precise de uma ajuda extra. Quando o caso não é grave, um guincho de um outro qualquer veículo pode ser a solução – e foi essa a resposta para vários. Mas há também casos mais complicados, em que mesmo um conjunto de guinchos precisa de uma mãozinha extra. Ou, melhor, de uma pá de apoio (e pelos dois exemplos abaixo descritos parece ser este um elemento essencial para quem anda nestas andanças).
Primeiro foi um carro junto ao mar, que se passeava, junto à aldeia piscatória onde dormimos de domingo para segunda, para observar caranguejos e aves. O lodo não perdoou e depressa o chamou a si.
A BT-50, o primeiro carro a acudir, desistiu, correndo o risco de também lá ficar. O segundo, o Range Rover onde a Fugas seguia, quase voou ao perceber via rádio a urgência: o Land Cruiser estava a afundar-se, a cada minuto que passava, na areia. E a maré haveria de subir. Mas, lá chegado, depressa compreendeu a armadilha que o terreno representava. E o guincho, quando accionado, trouxe mais desânimo, ao rebentar e funcionar como um chicote. Chegou um terceiro veículo, um Toyota HDJ, cujo guincho parecia dar confiança suficiente para sacar o bicho atolado.
Mas o caso agravava-se a cada instante e foi preciso recorrer a uma das tais essenciais pás. Escavou-se de frente, de lado, por baixo. O lodo parecia estar decidido a engoli-lo. Segundo carro ancora terceiro; terceiro dá guincho à vítima; vítima prende o seu próprio guincho ao terceiro. Não chega. Seria necessário um quarto guincho a puxar para, ao fim de um tempo – que pareceu interminável, particularmente para o proprietário do Toyota – se dar a batalha por vencida.
Desde este incidente até à borbulhante St. Louis, ainda haveríamos de apanhar outro grande susto. Tão grande quanto o camião. E a apenas uns dez minutos da fronteira entre a Mauritânia e o Senegal, país a que chegámos ao 13.º dia de viagem (mas que estivemos quase, quase a não chegar: a fronteira fechava às 18h e às 17h20 já íamos com cinco tentativas de puxar o camião do lodo sem quaisquer progressos positivos).
Poucos percebiam como teria aquele que passou os últimos dias a safar tudo e todos se enfiado num “buraco” daqueles. Bastou um segundo para a roda dianteira direita resvalar e a partir daí só houve a tentativa – bem-sucedida, felizmente para a Fugas que seguia a bordo – de segurar o pesado que se foi arrastando e mergulhando no lodo. Primeiro estava a ser apenas chato tal acontecer. Mas quando o possante guincho se revelou frouxo, foi preciso recrutar mais do que o Defender e o HDJ 100 que estavam prontos a ajudar. Os reforços chegaram da fronteira sob uma nuvem de fumarada: um TD5, um Pajero, HDJ 80.
Posicionaram-se por trás, montaram guinchos. Nada. Mudaram para a frente, voltaram a unir viaturas. E nada. Cavaram-se trincheiras, limpou-se o terreno à volta dos pneus. E tudo na mesma. Da fronteira iam chegando instruções para que qualquer pessoa que não estivesse a fazer nada se dirigisse à saída da Mauritânia. O problema é que não havia condutor de mãos a abanar. Os que não tinham guincho para ajudar, não se fizeram rogados e pegaram nas pás. E os outros tinham porque tinham de registar o momento – além de formarem uma espécie de equipa do apoio moral. Terá sido à quinta tentativa que se conseguiu resgatar o camião à lama que se estava a transformar em pedra mais depressa do que poderíamos supor. Às 17h30, os carros arrancaram vertiginosamente em direcção ao Senegal. Cerca de dez minutos depois, a longa caravana finalmente ficava completa. Bievenue au Senegal!
O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventura aqui
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10 de Janeiro de 2012
Portugal-Dakar Challenge: Todos na Terra de Ninguém
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)
Sete horas. Mais coisa, menos coisa. Foi esse o tempo que levámos a sair de Marrocos e a entrar na Mauritânia. Quatro quilómetros, desde o último posto de abastecimento, já a apenas alguns passos da porta de saída do primeiro país, mas ainda a um mundo de distância do segundo. E nem as seis horas da alvorada nos permitiram despachar um pouco mais depressa.
Ainda do lado de Marrocos, há TIR de várias nacionalidades coladinhos uns aos outros, distribuídos por várias filas, alguns carros avariados – como o caso de um modelo a gasolina que teve direito a uma refeição diesel para depois o seu proprietário acabar com o petisco de desarrumar a imensa bagagem que ninguém percebe de onde sai (e muito menos como voltará a caber) –, turistas autónomos, expedições de aventura (pelo menos duas: a nossa e a de um grupo de franceses com que nos cruzáramos no mesmo complexo em Dakhla). Depois há guardas, agentes aduaneiros, militares, gendarmes e outros tantos que não chegamos a perceber o que lá fazem. Controlos a atravessar até ao último centímetro marroquino.
As diligências até que nem correm mal. Mas isto é demorado; não há outra volta a dar. Para mais, desta vez, a caravana tem de seguir compacta. Sair junta de Marrocos; entrar junta na Mauritânia. E, acima de tudo, atravessar unida a língua de terra, apropriadamente denominada “Terra de Ninguém”, que separa os dois países. Uma distância de 3,5km, onde não há lei. Onde ninguém manda. Ao longo da pista o que mais se vê é lixo, sucata, carros desmantelados. No entanto, algo nos diz que se um qualquer dos carros tivesse um problema, depressa brotariam do nada mais de uma vintena de seres cujo sustento se encontra precisamente neste limbo “que depressa se pode transformar num inferno”, como nos descrevem.
Ninguém se queixa ou mesmo revela quaisquer sinais de nervosismo. Mas, ao chegar ilesos à entrada da Mauritânia, arriscaríamos falar de um sentimento de alívio que atravessa a caravana: safamo-nos a pneus furados, motores gripados, carros atascasdos.
Ainda não entrámos no país e percebemos ao longe o que nos aguarda: horas e horas de espera. Pelo menos assim o fazem crer os quatro postos de controlo, separados por não mais de 50m, além da obrigatoriedade de parar para fazer um seguro automóvel válido no país. O que, fazendo contas por alto, com 26 veículos (23 jipes, duas motos e um camião) a uma média de (vamos ser bonzinhos), digamos, cinco minutos cada, teríamos ainda pela frente mais de duas horas. Mas aqui o melhor é não fazer contas. Melhor ainda é esquecer o relógio e relaxar. Ninguém vai a lado nenhum sem tudo resolvido e a descontracção pode ser a melhor coisa a pôr na bagagem quando se decide enfrentar uma incursão por estes lados.
Apenas uma coisa nos preocupa: a fronteira encerra às 18h. Haja boa vontade e algumas contrapartidas.
Os postos de controlo até que se passaram bem (um deles, a Fugas passou a pé, enquanto participava num esforço conjunto de fazer café entre as filas que inclui um minifogão dali, café e cafeteira dacolá e ainda o trabalho artesanal de criar pequenas chávenas a partir de garrafas de água). Já os seguros das viaturas implicaram uma longa e extenuante espera. Num buraco escuro, em cujo letreiro sobre a porta se lê “Café / Restaurant”, fazem-se seguros à luz da lanterna.
Já passava das sete e meia da tarde quando a caravana teve ordem para arrancar. Daí até ao acampamento touareg, onde ninguém teve a capacidade de multiplicar peixes para o jantar, ainda palmilhámos cerca de 200km – os últimos 40 em pista, iluminada por uma gigantesca lua e escoltados por militares que nos têm acompanhado desde a saída do asfalto – à velocidade possível para o camião que não dá mais de 83km/h.
E hoje é dia de semidescanso em Arkeiss: dormimos em jaimas touareg, embalados pelas ondas, desta vez atlânticas e acordámos para um dia tranquilo numa praia só para nós.
Enquanto montámos escritório, desta vez junto a uma pequena duna, com vista mar, há quem esteja a apanhar burriés – ou caramujos, como lhes chama Omar, um dos ocupantes do 19 que vêm da Madeira –, a fotografar alforrecas, a correr na linha d’água, a mergulhar em águas multicolores como se não houvesse amanhã, a passear. Neste dia, por causa das marés que determinam se o nosso caminho está ou não livre, a etapa só arranca depois de almoço e no fim do dia estaremos em Tessot.
O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventura aqui
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08 de Janeiro de 2012
Portugal-Dakar Challenge: Dançando com dromedários
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)
Foram o Alexandre e o Hugo, a dupla que segue no camião de apoio, que primeiro o avistaram. E nem pensaram duas vezes: inversão de marcha feita e dedo indicador esticado frente aos lábios a indicar silêncio, passaram por nós sorrateiros em sentido contrário. Tinham detectado, a cerca de 200m da pista e numa zona segura, um dromedário a pastar entre uma paisagem salpicada por árvores tombadas ao capricho do vento que parece não ter descanso. Pelo rádio ouvimos: “’bora! Sabe-se lá se voltamos a ter uma oportunidade destas: vamos tirar uma fotografia ao lado do bicho”.
E dê-se início ao baile. Camião pela direita e GC1 pela esquerda, aproximando-se devagar e sem grandes ruídos. O belo animal, naturalmente, tenta escapar-se aos voyeurs mas lá conseguimos a imagem desejada, sem o chatear muito. Só depois o dromedário nos decide mostrar o que é o todo-o-terreno, dando uns valentes galopes para longe destas bestas de metal. O instante arranca gargalhadas de prazer, boa-disposição e a certeza de que o deserto já nos acolheu como um dos dele.
É sexta-feira e, assim que o sol nasceu, deixámos a teimosa fogueira da noite anterior (demorou um bom par de horas e vários e inusitados recursos para atear, mas de manhã ainda ardia) juntamente com os homens da Gendarmerie marroquina, e partimos com destino a Dakhla. Prosseguimos a etapa 8 rumo ao vazio no GC1, um dos veículos da organização, com o Zé Pereira.
A bordo do carro do mecânico, o todo-o-terreno revela-se uma injecção de adrenalina em estado puro. Zé Pereira, que no seu currículo conta com uma posição entre os dez melhores na classificação geral do Rali Estoril Portimão Marrakech, nem parece estar a fazer nada de especial com a Ford onde seguimos. Mas a verdade é que brinca como poucos nestes trilhos de todo-o-terreno. Com ele, surfamos o deserto. Até porque, como gritava de vez em quando alguém pelo rádio, “o mar aqui à frente está crispado”. É verdade que, sem contar com os reflexos que, qual alucinações, parecem mostrar-nos o oceano em várias partes do trajecto, água nem vê-la. Mas ondas não nos faltaram. Quer as feitas pela natureza, quer as que os outros carros vão criando.
Pelo caminho, saltitamos, corremos, aceleramos, afocinhamos. A palpitação também acelera, mas o medo parece não ter atravessado a fronteira connosco. Embora, como nos garantiu o nosso condutor, tivéssemos “vindo calminhos”.
O GC1 é o carro que fecha a caravana e, por isso, não pode passar nenhum dos outros participantes. Isto dá direito a várias pausas ao longo do dia: se há um que pára, nós paramos. O tempo que for necessário. E se alguém se lembra de almoçar, nós almoçamos (desta feita na ementa havia paio, presunto, queijo, lulas e polvo para acompanhar o pão trazido no dia anterior de Es Semara; para beber, uma cerveja fresquinha).
Já agora, ao contrário do que supúnhamos na última nota enviada, não houve nenhuma roda para trocar ou pneu para remendar (a estafa do jipes da semana seria descarregada no dia seguinte, com uma ida a uma oficina improvisada, onde Zé Pereira e Pedro foram aviando um a um). Mas não faltou que fazer nem razões para travar a marcha. Como os carros que iam parando para despejar os jerricans no depósito, um outro que precisou das reservas do GC1 para abastecer de gasóleo, pelo menos três atascanços – um deles, nosso (culpa desta vossa escriba que se lembrou de pedir para que se imobilizasse a viatura precisamente numa zona de areia com a triste intenção de captar a fotografia ao grupo reunido no topo da duna) – e a tentativa de assistência a uma Tenéré após uma aparatosa queda. A mota porém não precisou de assistência mecânica. Os problemas dela resolver-se-ão mais tarde e vai acabar a viagem à boleia do camião, enquanto o condutor prossegue até Dacar com apenas uns arranhões.
Houve ainda quem se tivesse “perdido”, obrigando-nos a seguir uma pista diferente que nos levou a uma outra paisagem, marcada ainda mais pelo branco. A areia nesta parte é mais fina e o vento varre-a insistentemente, fazendo com que os trilhos desapareçam num piscar de olhos. Já o horizonte surge cada vez mais perto. Mas a seguir a um horizonte, vem outro. E outro. E outro. Sem fim à vista. E é então que percebemos onde estamos: numa armadilha gigante em que o deserto parece desafiar-nos a tentar afrontá-lo. Não o fazemos e voltamos para trás, esperando que se tenha tratado de apenas um pequeno desvio, mas preparados para accionar a procura se o pior se confirmasse. Não viria a ser necessário: cerca de 100km à frente recebemos a informação, via rádio, que o veículo em causa estava bem e já no Dakhla Attitude, o complexo de bungalows, encaixado numa ravina junto ao mar que todos os dias recebe fãs do kitesurf.
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07 de Janeiro de 2012
Em caravana pelo deserto
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)
O Sara pode ser apenas um único deserto, mas encerra mais mundos do que aqueles que se poderia conseguir enumerar em parcas linhas. Desde Es Semara atravessámos, num artilhado e muito alterado Range Rover, oceanos de cascalho, ondulações de areia, planícies lunares. Sítios inóspitos em que o céu parece ter sido pintado à mão e onde o tempo parou. Sempre dentro da mesma cúpula que nos parece manter aprisionados, como se estivéssemos dentro de uma daquelas bolas que quando se agitam cai neve. Só que, aqui, em vez de neve, à noite poder-se-iam agitar estrelas. Ao longo de 150km e umas seis horas passámos por um único ser humano: um homem dentro de um forte, como tantos que se vêem, ao longo do Sara. Foi preciso chegar ao asfalto, a 15km do acampamento, para nos cruzarmos com outros carros, cuja aparição parece, mesmo no meio do nada, arrancar-nos a uma espécie de alucinação e obrigar-nos a regressar ao mundo real.
Ao contrário dos outros dias, hoje viajámos em caravana. Mantendo os grupos, cada um com mais ou menos cinco carros, mas bem juntos. Em Es Semara uma coluna militar parou-nos nas últimas bombas de gasolina, de onde se conseguiu o último acesso. Foi necessário mostrar documentos para seguir. Mas, ainda assim, fomos escoltados durante alguns quilómetros pela polícia marroquina. Voltaríamos a encontrar agentes junto ao acampamento: de momento, a uns 20 metros do local onde a caravana se juntou num círculo perfeito para passar a noite, um grupo de polícias cerca-nos para assegurar que a noite seja tranquila: para nós e para eles.
Mas na última cidade por onde passámos as ordens foram claras e inflexíveis: não se pode sair da pista nem tão-pouco afastarmo-nos uns dos outros o suficiente para perder comunicações rádio. Trocando por miúdos, a distância do carro que segue atrás – aquele pelo qual temos a responsabilidade de garantir o seu bem-estar – não deve exceder os oito quilómetros em linha recta. As razões poderiam ser muitas, mas resumem-se a uma questão de sobrevivência. A expedição pode ser turística; a zona não o é.
Além das pedras, da terra, do pó, da areia, estamos a passar também por um mar de minas. E, embora já se tenha procedido à desminagem da área, ainda há muitas por localizar e o melhor é não arriscar. Por isso, circulamos entre os montes de pedras (ou cascalho) que servem de bermas. Para lá destas nada é garantido.
Entretanto, cada grupo ao seu ritmo, todos chegaram ao acampamento algures próximo do Trópico de Câncer que já atravessámos com sentimento de dever cumprido. Pelo caminho, todos foram tirando o máximo partido do que o trilho oferece: areia para brincar com a tracção às quatro, lombas para exercer (nesta altura já não há hipótese de praticar; apenas de fazer… e o melhor possível, de forma a não prejudicar nem veículo nem condutores), curvas para gingar, degraus para voar. Ou capotar.
Nada de alarmes. O dia não foi pautado por nenhum acidente que resultasse em feridos. Algumas avarias, uns quantos furos, um carro a verter óleo do motor depois de um encontro com um pedregulho, detectado no trilho pelo Patrol que seguia na traseira da caravana e que, contara-nos, avisou o Zé Pereira que, em conjunto com o filho Pedro, presta assistência aos veículos ao longo de todo o percurso.
A desculpa perfeita para parar e apoiar a equipa paralisada e a equipa mecânica que lhes deu assistência e que lhes permitiu prosseguir viagem. Mas também uma óptima razão para decretar uma pausa para almoço: um pão fresquinho trazido de Es Semara com caldeirada de lulas, acompanhado por batatas fritas de pacote e regado com água. Para a sobremesa, pêssego em calda.
A refeição sabe-nos pela vida e dá forças para prosseguir os ainda 115km que temos pela frente. Deixamos o Nissan a repousar o silicone com a equipa mecânica e com o camião de apoio que fechava a caravana e volta-se a pôr prego a fundo – uns com pregos mais rápidos que outros, mas todos a darem o máximo conscientemente possível.
Com a caída da noite, percebemos que já chegámos a um outro deserto. Um deserto onde já há vida, quer em forma de insectos, quem em forma de árvores. Quaisquer deles, com um nível de resistência indicado para habitar um espaço em que do solo só parecem nascer pedras e onde ferve durante o dia (hoje, atingimos uns secos 30ºC) e gela ao longo da noite (são duas da manhã e os dois pares de calças, as duas camisolas – uma de malha, outra polar –, o gorro de lã, o casaco de penas com capucho e meio corpo dentro de um saco-cama não chegam para esquecer o frio.
Amanhã, logo às sete (hora de Lisboa), seguimos para Dakhla, onde nos espera um banho e um colchão. Com sorte, até um mergulho no mar. Bem merecido: a viagem da etapa 8 far-se-á com quem vem a trabalhar para que todos os veículos cheguem ao destino. Por isso, pode ser que ao longo do dia de amanhã a Fugas passe mais tempo a mudar pneus que a fotografar a paisagem.
O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventura aqui
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05 de Janeiro de 2012
Portugal-Dakar Challenge: Rumo à Mauritânia
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Passavam trinta minutos da meia-noite e os geradores já se tinham desligado há muito. Também a antena que dá acesso à Internet, explicou-nos Pierre, de Toulon, devia estar desligada… ou avariada. Passámos a última noite em Fort Beau Jerif, um complexo instalado próximo de um forte, quase no meio do nada, mas com luxos inimagináveis quando comparado ao último hotel, o Imperial Holiday, em Marraquexe, de onde até a saída foi muito dificultada e exigiu a presença de polícia e delegado de turismo. Pelo menos para os membros da organização.
Os restantes foram liberados para o primeiro dia que começou a arrancar boa-disposição geral, mas que também se revelou sofrido para alguns. O Pajero de caixa automática parou pouco tempo depois da cidade com problemas. Precisamente na caixa automática. Regressou a Marraquexe e hoje aguardava a chegada da máquina que iria diagnosticar o problema, sem quaisquer certezas de poder continuar connosco. Para todos os outros também não há facilidades. Acabou-se o passeio turístico, rematado da melhor forma comuma incursão à exuberante e intensa praça Djemaa el-Fna e iniciou-se a expedição de sobrevivência em que cada carro é um templo para quem aí segue.
Além disso, demorou, tempo e quilómetros, mas os 30 minutos de pista para chegar ao forte foram suficientes para sentir que valeu a pena a caminhada de alcatrão até aqui. A noite anterior foi uma última noite de relaxe antes do deserto que nos conduz ao Sara Ocidental para duas noites de acampamento.
Parámos para abastecer no último posto em que há a certeza de haver combustível. Depósitos a vazar e jerrycans completos, aproveitamos a deixa para comer alguma coisa e ligar o computador à corrente localizada sobre um lavatório e com um caixote do lixo ao lado, gentilmente cedida.
Hão-de chegar momentos ainda mais difíceis, principalmente para atravessar a Mauritânia. E acabam-se as certezas de quando poderemos enviar o próximo relato (mas haveremos de tentar tudo para enviá-lo o mais depressa possível): é que a partir daqui, o território é inóspito e a rede poderá falhar a maior parte, se não todo, o tempo.
Mas para já vamos aproveitando a simpatia com que nos vão acolhendo por onde quer que passemos – como nos acabou de acontecer em Tan-Tan, onde deixámos o endereço da Fugas para que os nossos anfitriões, que nos andaram a guiar entre padarias, cafés, casas de banho, pudessem espreitar e até deixar um comentário (Salut! Et merci pour tout!).
p.s. – entretanto, chegámos, nesta quinta-feira, a Es Smara, local do último abastecimento até Dakhla e também para o último contacto com a civilização. A noite foi passada no deserto sob uma cúpula estrelada. Prosseguimos rumo à Mauritânia. O nervoso miudinho aumenta, mas também o ânimo. Infelizmente, o Mitsubishi Pajero, que ficou em Marraquexe, voltou para casa. Deixamos aqui os nossos votos de boa viagem.
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02 de Janeiro de 2012
Portugal-Dakar Challenge: Do Mediterrâneo ao Atlas
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Com o céu cinza e alguns salpicos, abandonámos logo às primeiras horas da manhã as paisagens verdes secas do Mediterrâneo, deixando uma caótica Rabat para trás. Deste ponto até Marraquexe há apenas auto-estrada para palmilhar. Mas, mesmo calculando a falta que os carros já sentem de um pouco de pó, nem por isso a monotonia se impõe. Um pouco por todo o lado, há sempre algo a tomar atenção. Ora são as obras de alargamento, ora as operações stop (no mínimo, uma por portagem: e em 323km passámos seguramente por mais de três), ora são as pessoas que, do nada, surgem a correr prontas a vender, a pedir, a negociar.
Como os três homens que, assim que parámos as viaturas, logo a seguir a umas portagens quase no meio do nada, nasceram tal cogumelos, não se sabe bem de onde, com colares (“flor de pinho, señora”, dizia um, arranhando o espanhol, “un’euro / 10 dirhams”), com cestas de vime (“una, cinq’euro”), ou até mesmo com uma moeda de 50 cêntimos para trocar por dirhams. Há quem ainda ofereça “três euros por duas cestas de vime”, mas inflexivelmente o valor não baixa de “dua, quatr’euro”. Já o custo dos colares é mais oscilante: de um euro cada passou a dois por um euro, depois três, depois quatro… E, oferta final, um molho deles por sete dirhams (qualquer coisa como 70 cêntimos).
Saímos de mãos a abanar, sem negócio concretizado, mas ainda arrancamos uma sonora gargalhada para a fotografia. Pelo caminho, passamos por aldeias que parecem acampamentos, por mulheres na estrada, de mala ao ombro, como que à espera do autocarro, por um reboque cujos carros vão cheios de marroquinos à boleia, por camiões cuja carga ultrapassa em dobro o tamanho do vagão que a transporta, por plantações a perder de vista, por tanques de guerra camuflados em cima de camiões TIR. E o horizonte vai-se abrindo. O céu já é maior e o olhar periférico já só consegue apanhar uma ínfima parte do que se tem pela frente. Lá ao fundo a imponente e nevada cordilheira do Atlas, cujo pico mais alto sobe a mais de 4160m. No seu sopé, a “cidade vermelha”, hoje iluminada por um sol atrevido — que, se o descuido o deixar, até queima -, emoldurada por um limpo céu azul, a contrastar com a cinzenta Rabat que deixámos três horas antes.. Sabemos que nos estamos a aproximar de Marraquexe também pelos carros que se cruzam connosco na auto-estrada: jaguares, ferraris, lamborghinis… Em oposição, seguem ao nosso lado motoretas “a cair de maduras” de cujos condutores arrancamos sorrisos, saudações e até poses para a câmara.
Assim que entramos na cidade voltamos ao caos do trânsito. A caravana é compacta, mas há sempre quem a consiga separar. E lá acabamos perdidos… a uns parcos 100m do hotel. Ficamos mesmo aqui ao lado a comer umas espetadas de carne ultratemperadas com batata frita e pão a acompanhar. A rematar, um café expresso de sabor estranho mas viajado: à falta de um para servir, um dos empregados apressou-se a ir buscar cinco expressos ao botequim da frente, do outro lado da estrada. Choukran!
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02 de Janeiro de 2012
Portugal-Dakar: O dia mais longo
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

Acabámos de “aterrar” em Rabat. Pelo menos uns quantos de nós. A comitiva onde seguem os veículos cujos condutores regressarão de avião a Lisboa ainda vem a caminho; algures entre Ceuta e o fim da 3.ª etapa, que ligou Portimão à capital marroquina [o camião, que saiu de Portimão às 04h00, havia de chegar 03h25 do dia seguinte].
Foram precisas 14 horas, desde que abandonámos o hotel de Portimão, para atravessar a entrada do Ibis de Rabat. Pelo caminho ficaram cerca de 800km de asfalto e uma travessia marítima pautada pelas burocracias inerentes (passa documento, preenche papel, mostra outro documento, carimba papel…). Ainda assim, livrámo-nos das prováveis revistas aos carros. Depois de várias dezenas de viagens a Marrocos, “Zé” Pereira, o mecânico que este ano se junta à expedição, já se pode dar ao luxo de, qual ilusionista, tirar da manga um conhecimento aqui e outro acolá. Por isso, o que de início parecia interromper o percurso por um tempo infinito, despachou-se num instante. Saímos de Tarifa às 17h (hora local, 16h de Lisboa) e pelas 19h (também hora local; a mesma de Lisboa) já estávamos a tratar de levantar dinheiro e trocar euros por dirhams (1 euro equivale a 10 dirhams, sendo que o jantar, por exemplo, ficou em 75 dirhams).
Mas, antes de nos sentarmos à mesa, em solo marroquino, ainda havíamos de penar. Até Tarifa, progatonizámos um quase contra-relógio. É que jipes carregados equivalem a velocidades limitadas. Logo, a maioria do tempo foi-se circulando entre os 100 e os 120km/h. Com duas paragens para abastecer, uma das quais para um “bocadillo” para almoço, alinhámos na fila para o “ferry” mesmo a tempo de preencher mais um ou outro papel e embarcar. Por isso, à falta de competição, há desafios de sobra a ultrapassar.
á do outro lado do canal, esperava-nos outro género de desafios. Depois da fronteira e das desconfianças dos guardas, tivemos de nos safar às operações stop um pouco por todo o lado – e, percebe-se, não vale a pena irritar nenhum agente; é passar certinho, sem avarias e sempre em frente –, trânsito caótico onde os sinais parecem servir para enfeitar e as pessoas que parecem nascer das bermas das estradas e até das auto-estradas num ponto no meio do nada.
São, entretanto, oito e picos e a fome leva-nos a decidir deixar a última etapa de quase 300km para depois do jantar. Ficamo-nos por Assilah, fazendo um pequeno desvio da auto-estrada que nos traria a Rabat, para aproveitarmos uma das muitas esplanadas de pequenos restaurantes: da ementa, a destacar um chá de menta hiperdoce e uma quente e revigorante harira, uma sopa tradicional marroquina que alguém acusa de ter vindo directamente de um pacote de sopa Maggi. Algo prontamente negado pelo homem que vai atravessando a estrada de um lado para o outro inúmeras vezes para nos servir, evitando os carros velhos e desconjuntados, e que se vai cruzando com dezenas de famílias que se passeiam: homens de crianças pequenas pela mão, mulheres acompanhadas com um trio de garotas de patins, alguém que passeia o cão (um husky que parece deslocado do ambiente), bandos de rapazes que se divertem…
Um dia longo que termina já a pensar na “cidade vermelha” que nos espera amanhã. Até Marraquexe.
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01 de Dezembro de 2012
Portugal-Dakar Challenge: “Sana saâida”
Por Carla B. Ribeiro (Em Viagem/Fugas)

E para continuar este 2.º Portugal-Dakar Challenge, ainda por caminhos lusos, uma etapa para “aconchegar a bagagem”. A bagagem e os espíritos. Embora esses já estejam mais do outro lado do Mediterrâneo do que pelos trilhos ibéricos por onde ainda circulamos. A passagem do ano fez-se por Portimão – um jantar e ceia no Tivoli, onde passámos a última noite antes de Marrocos. I.e., antes de se iniciar “a verdadeira aventura”, confirmam-nos uns quantos olhares de ansiedade.
Ainda sem o céu africano a perder de vista e livres das agruras que as paisagens desérticas podem proporcionar, o segundo dia, pelos caminhos de terra que ligam Beja a Silves e, daqui, por estrada, até ao Autódromo do Algarve, já deu para duas coisas: assegurar que nenhum dos veículos se “desmanchará” ao mínimo imprevisto e alimentar a vontade de seguir para trilhos ainda mais arrojados. Também deu para que várias viaturas, na impossibilidade dos seus participantes (ou mesmo por limitações da própria máquina) se manterem na prova ao longo de duas semanas, se juntassem com ânimo nesta expedição para as duas etapas nacionais. A Fugas seguiu de Toyota Land Cruiser, numa comitiva que incluía ainda um Range Rover, uma Mazda BT-50, preparada para competição, um Mitsubishi Pajero e uma Ténéré.
A bordo de um muito confortável Land Cruiser, graças ao sistema reforçado de amortecedores, o barulho da tralha acumulada pode ainda não ser ensurdecedor, como nos avisa o nosso condutor desta etapa, Fernando, um empreiteiro que descobriu o gosto pelo todo-o-terreno quase ao mesmo tempo que Marrocos. Mas já impõe respeito e já deixa adivinhar o que nos espera. O certo é que a garantia é de que “isto ainda não é nada!”. Fica o alerta.
Ainda assim, já há derrapagens, charcos, alguma lama e muitos buracos para que se perceba o gosto de brincar que atravessa toda a caravana. Ainda com várias precauções: ficar em Portugal por causa de uma brincadeira de fracos resultados “seria como morrer na praia”. É por essa razão que a pista de todo-o-terreno do Autódromo Internacional do Algarve é encarada com precaução. Mesmo devagar, a pista impõe respeito, quer pelos ângulos íngremes de subidas e descidas, quer pelas curvas apertadas. O “sô” Rogério segue à frente na volta de reconhecimento. É neste grupo quase um guru. Conhece como poucos as manhas do todo-o-terreno e tem um instinto de navegação que lhe conquistou o direito de seguir a maior parte do tempo em primeira posição da caravana – um direito que tem como brinde poder viajar de janelas abertas sem uma refeição de pó por acréscimo. Por isso, quando o “sô” Rogério avisa para se ter cuidado, a advertência é levada a sério. A primeira volta é cuidadosa e, dada a hora tardia, já com o sol a bater de frente, dificultando a visibilidade. Na segunda, já bem afastados uns dos outros, a conversa é outra e a experiência já dá direito a saltos e peões. E, para Javier, que, depois de no ano passado ter vindo com o pai de jipe, viaja em duas rodas, deu quase direito a uma aparatosa queda: “fiquei assim [e aproxima os dedos deixando um intervalo de uns dois centímetros] de ir ao chão”, explica bem-disposto.
Mas, finda a etapa, ninguém caiu, nenhum carro revelou necessidade de intervenções de maior, ninguém precisou de ser rebocado. Já a carga, essa, ficou de facto mais aconchegada. Pronta para seguir viagem que, ao terceiro dia, tem pela frente uma etapa de quase 800km. Ao fim do primeiro dia do ano já estaremos em Rabat a desejar “Sana saâida”. Que é como quem diz: “Feliz Ano Novo”.
O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventura aqui
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30 de Dezembro de 2011
Portugal-Dakar: Tudo a postos para a partida

Mochilas a postos, vacinas em dia, motores lubrificados, pneus novos em folha. Tudo pronto para “acelerar” para o 2.º Portugal-Dakar Challenge, um rali que se pauta mais pela contemplação do que pela competição. As 40 equipas já se fizeram à estrada a caminho de Dacar — num primeiro dia calmo por Portugal, com partida do Cartaxo — e com elas segue a Fugas.
Ainda não são as deslumbrantes dunas do Sara, mas à porta do Museu Rural e do Vinho, no Cartaxo, a adrenalina já se fez sentir entre participantes, que se dividem por 4×4 e por motos. Juntos vão percorrer o mítico percurso até à capital do Senegal — que será acompanhado dia a dia no blogue Em Viagem da Fugas -, tornado famoso com o Paris-Dakar (prova entretanto rebaptizada apenas de Dakar e que acelera pela América do Sul de 1 a 15 de Janeiro).
Neste Portugal-Dakar Challenge, em vez de em causa estar a vontade de chegar primeiro, prometem-se “liberdade, aventura, natureza, turismo, solidariedade e cultura”. Até porque, garante a organização, haverá nos próximos 15 dias tempo de sobra para vivenciar “cenários e ambientes”. Tanto fora como dentro de portas.
Ainda em Portugal, há duas etapas que não deverão deixar as equipas indiferentes e que até podem servir de aquecimento: hoje, o percurso que liga o Cartaxo a Beja inclui, ao longo do dia, paragens em Alenquer, com visita à sede da Rota dos Vinhos de Lisboa e em Torres Vedras, na sede da CVR de Lisboa.
Para o último dia do ano está reservado um “mimo” para aceleras e um treino para os mais inexperientes: o Off Road Park do Autódromo Internacional do Algarve, a partir das 15h, deverá pôr à prova os veículos antes de partirem para terrenos menos amistosos. O fim da segunda etapa está programado para Portimão, onde a partir das 18h, os participantes deverão começar a chegar à Zona Ribeirinha, junto ao Clube Naval.
2012 chega com o início de uma etapa que levará a comitiva até Rabat e daí parte-se rumo a sul. Marraquexe, Fort Bou Jerif e, por fim, o deserto, que acolhe duas etapas. Dakhla, ao fim do 8.º dia, chega com a risonha perspectiva de um dia de descanso para aproveitar a cidade do Sara Ocidental, onde se cruzam influências espanholas, sobretudo nas construções, com cultura sarauí e traços marroquinos. E já se pressente a proximidade com a Mauritânia.
É para o deserto já do outro lado da fronteira para onde se segue ao 10.º dia. Na Mauritânia, há paragens obrigatórias em Banc D’Arguin e Nouakchott. A entrada para o Senegal faz-se pela estudantil St. Louis. Mas ainda antes de atravessar a meta, em Dacar, uma etapa de excelência com ponto de chegada no Lago Rosa, onde estão prometidas algumas últimas brincadeiras com os veículos. No fim, terão sido percorridos 4618km ao longo de mais de 60 horas (86h45’, se se contabilizar o tempo de paragens).
Rali solidário
Além da vertente lúdica, há também com duas missões solidárias: a primeira envolve todos os participantes e implica a entrega de uma bolsa de equipamentos escolares e educativos a unidades de ensino em aldeias marroquinas previamente identificadas. A segunda aposta na saúde oral, com a criação de folheto em português e francês, entrega de Kit Dentário Oferta (escova, pasta, fio dental e informação) e uma acção de rastreio oral em crianças por Portugal, Marrocos e Senegal.
Etapas
1.ª Cartaxo — Beja (30/12)
2.ª Beja — Portimão (31/12)
3.ª Portimão — Rabat (01/01)
4.ª Rabat - Marraquexe (02/01)
5.ª Marraquexe — Fort Bou Jerif (03/01)
6.ª Fort Bou Jerif — Lac Chbabiyne Acampamento (04/01)
7.ª Lac Chbabiyne Acampamento — Deserto Sara Acampamento (05/01)
8.ª Deserto Sara Acampamento — Dakhla (06/01)
9.ª Dakhla — Dakhla (07/01)
10.ª Dakhla — Mauri Desert Camp (08/01)
11.ª Mauri Desert Camp — Banc D’Arguin Desert Camp (09/01)
12.ª Banc D’Arguin Desert Camp — Nouakchott (10/01)
13.ª Nouakchott — St. Louis (11/01)
14.ª St. Louis — Lago Rosa Camp (12/01)
15.ª Lac Rose Camp — Dacar (13/01)
O Diário de Bordo PDC é assegurado pela jornalista Carla B. Ribeiro (Público/Fugas) que acompanha e relata esta aventura aqui














